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O LAGO GELADO

 

 

Amanhece

O ar gelado daquela manhã me enternece

Vejo ao longe

Meus queridos

Na beira do lago gelado

E cinza com a névoa

Brincando e correndo

E dando vida à areia deserta

As manhãs, naquele lugar

São frias e úmidas

Mas o que me esquenta

É esse odor de menta

Que vem da tua boca

Quando você conta

Aos teus filhos

Tua infância feliz

Como se fosse um chamariz

Para que as recordações dos pequenos

Fossem também lembradas

Em um lugar comum para todos nós

O lago gelado

Segue sendo sem vida

Mas que dá vida

À poesia de nossa vida.

 

Alma Collins


Postado por Alma Collins às 12h23 PM
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Postado por Alma Collins às 07h53 AM
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Hospitais e pesquisadores usam música para acelerar recuperação de pacientes cardíacos

JULLIANE SILVEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL

A pianista Beth Ripoli, 57, tocava uma música quando viu seu marido se aproximar. A composição era romântica, ambos choraram, o público se emocionou com a cena. Ele, o empresário Luiz Carlos Franco, 56, andava com dificuldade e arrastava o frasco de soro -estava internado havia alguns dias, recuperando-se de um infarto e da implantação de quatro pontes de safena. Ela tinha resolvido tocar o piano do hospital enquanto acompanhava o marido no pós-operatório.
"Eu precisava andar e vi que ela estava tocando, e a música me chamou a atenção. Imagina ter seu tronco aberto, pararem seu coração para operá-lo e depois ele voltar a bater. Fica-se em um estado muito sensível, alguns pacientes entram em depressão. E a música exercita sua sensibilidade do lado positivo", avalia Luiz.
Desde então, Beth apresenta recitais no HCor (Hospital do Coração), em São Paulo, para pacientes e acompanhantes, como parte de um projeto que considera a música um dos componentes que ajudam na recuperação de pacientes com problemas cardiovasculares, principalmente em questões emocionais.
Silvia Cury Ismael, responsável pelo serviço de psicologia do HCor, observa em seus pacientes que ouvir música durante uma internação ajuda a resgatar questões esquecidas do lado de fora do hospital, o que faz com que se sintam mais motivados a se recuperar. O ambiente, afirma Ismael, se torna mais leve e menos depressivo.
Para a ciência, no entanto, a música vai além: os benefícios não são somente emocionais mas também se refletem na redução da pressão arterial e da frequência respiratória e na normalização das taxas de batimentos cardíacos.
É o que mostram alguns estudos, como a revisão científica divulgada no mês passado pela Cochrane Collaboration (rede global dedicada a revisão e análise de pesquisas na área da saúde). Foram avaliados 23 estudos com dados de 1.461 pacientes que se submeteram a sessões de música durante a internação após cirurgia ou infarto.
A maioria dos trabalhos comprovou que a música ajudou a reduzir pressão sanguínea, ritmo cardíaco, frequência respiratória, ansiedade e dor nos pacientes estudados.
Os trabalhos avaliaram a ação de diversas músicas -boa parte com harmonias consonantes e ritmos constantes (como algumas músicas eruditas, baladas e músicas próprias para relaxamento)- em sessões de musicoterapia ou audições de até 30 minutos.
"Os estudos não apontaram por quais mecanismos a música ajuda o sistema cardiovascular. No entanto, sabemos que a música diminui a atividade de regiões cerebrais que afetam as respostas emocionais e psicológicas. Isso reduz a liberação de hormônios estressores que podem afetar a frequência cardíaca e a pressão arterial", disse à Folha Joke Bradt, responsável pela revisão científica e diretor-assistente do Centro de Pesquisa em Artes e Qualidade de Vida da Temple University (EUA).

Experiências brasileiras
Dados preliminares de um estudo que será publicado nos "Arquivos Brasileiros de Cardiologia" também são promissores. A musicoterapeuta Cláudia Regina de Oliveira Zanini, professora da Universidade Federal de Goiás, avaliou o uso da técnica em pacientes hipertensos para sua tese de doutorado.
Zanini observou 46 pacientes da liga de hipertensão da universidade durante três meses. Metade deles participou de sessões de audição musical, composição e improvisação vocal, além de exercícios de respiração e relaxamento voltados para a música durante 30 minutos por semana. Ao final do período, a pressão arterial desse grupo havia caído de 150 mmHg por 90 mmHg para 133 mmHg por 80 mmHg. Já o grupo controle não apresentou redução significativa.
"O tratamento da hipertensão é de longo prazo, e muitos pacientes não aderem a ele. Entre os que têm pressão alta, somente 50% sabem disso e só 10% têm sucesso porque seguem o tratamento. Eu proponho a musicoterapia como um tratamento não medicamentoso, que seja um coadjuvante", afirma Zanini.
Para a cardiologista pediátrica Thamine Hatem, do Real Hospital Português de Beneficência, em Recife, o uso da música ajuda na recuperação mais rápida dos pacientes, pois as reações provocadas no organismo pela música podem diminuir o uso de sedativos e remédios para a dor.
"Quanto menor o uso de analgésicos e de sedativos, melhor. Quanto menos tempo a criança passa na UTI, menor é o risco de infecção", diz.
Hatem publicou, em 2006, uma pesquisa que avaliou como reagiram 84 crianças de até 14 anos nas primeiras 24 horas após uma cirurgia cardíaca, depois de uma sessão de música erudita. "Dava para ver que, se a criança estava angustiada e chorosa, acalmava-se ao colocar o fone de ouvido; muitas crianças dormiam durante o processo."
As crianças ouviram "A Primavera", de Vivaldi, por meia hora e tiveram melhora no ritmo de batimentos cardíacos, na frequência respiratória e na sensação de dor. "Uma frequência cardíaca muito alta aumenta a pressão e o risco de sangramento. Já a frequência respiratória elevada significa desconforto ou problema pulmonar -se é controlada, mostra que era causada mais por um desconforto", explica.
A aposentada Eunice da Silva Ferreira, 52, também sentiu os benefícios do uso da música após a cirurgia para colocar duas pontes mamárias no INC (Instituto Nacional de Cardiologia), no Rio de Janeiro.
Foram instaladas caixas de som ao lado dos leitos, que transmitem música erudita, sons da natureza e canções próprias para relaxamento durante todo o dia, das 8h às 22h.
"O ambiente hospitalar é frio, há pessoas sedadas. Eu tenho uma doença sem cura, e a música me ajudava a me desligar um pouco da realidade. O uso da música deu tão certo que nós pedíamos aos funcionários que colocassem sempre", diz Eunice, que acompanhou a implantação das caixas de som na UTI do instituto.
De acordo com o INC, um ano após a instalação de caixas de som na UTI, houve uma redução de 40% no consumo de tranquilizantes e sedativos.
Os pacientes podem até pedir aos funcionários que desliguem o som, mas, dizem os médicos, ninguém nunca o fez.
"A UTI tem muito barulho, luz acessa, aparelhos. O paciente está ansioso com o que vai acontecer e isso gera um estresse grande. As diretrizes [orientações das sociedades médicas] indicam ansiolíticos aos pacientes; muitos não conseguem dormir à noite, a ansiedade aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial", diz o cardiologista Marco Antonio de Mattos, diretor do INC.

Escolhas musicais
Na maioria dos estudos, as músicas utilizadas têm ritmos constantes, harmonias consonantes e são mais calmas, características que ajudam o paciente a relaxar.
"Não é qualquer música clássica que produz relaxamento. É preciso pensar em músicas mais calmas, com menor número de batimentos por minutos e que sejam bem harmônicas e agradáveis", aconselha o neurocientista Felipe Viegas Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Neurociência e Comportamento da USP.
No entanto, fatores culturais e o gosto pessoal também devem ser levados em consideração na hora de utilizar a música como componente na recuperação do paciente.
"É preciso curtir a música, usufruir dela e de seus efeitos benéficos", sugere o neurologista Mauro Muszkat, coordenador do In Music, grupo multidisciplinar da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) que estuda a ação da música no organismo.
Não é possível, no entanto, determinar por quanto tempo o paciente deve ouvir música e quais seriam os tipos mais indicados. Muszkat resume: "Não dá para dizer o tempo adequado para cada indivíduo. De maneira didática, ouvir mais músicas, com graus diferentes de complexidade, um repertório variado, facilita ao organismo processar esses sons de formas mais variadas e mais amplas, inclusive com benefícios no sistema cardiovascular."

 

 


Postado por Alma Collins às 08h06 AM
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Ateus adotam nova estratégia: ir a público

The New York Times
Laurie Goodstein
Em Charleston (Carolina do Sul)
Dois meses após uma organização ateia local colocar um cartaz dizendo: "Você não acredita em Deus? Você não está sozinho", os 13 membros do conselho do grupo reuniram-se na sala de Laura e Alex Kasman para lidar com as consequências.

O problema não foi que o grupo, os Humanistas Seculares de Lowcountry, tinha virado alvo de hostilidades. Foi o oposto. Mais de 100 pessoas apareceram para seu simpósio público, e os membros do conselho estavam discutindo se não era hora de encontrar um espaço maior.

E agora os pais estão pedindo programas orientados para a família, nos quais possam se reunir com outros ateus de mente parecida.

"Todo mundo é a favor de patrocinar um piquenique para humanistas com famílias?", perguntou o presidente do conselho, Jonathan Lamb, meteorologista de 27 anos, ouvindo um coro de "sim".

Mais do que nunca, os ateus dos EUA estão se unido e se expondo - mesmo aqui na Carolina do Sul, lar da Universidade Bob Jones, das Leis Blue e de uma câmara legislativa que no ano passado aprovou unanimemente uma placa de carro cristã com uma cruz, uma janela de vitrais e as palavras "Eu Acredito". (A medida foi vetada por um juiz e agora irá a julgamento.)

Eles estão se conectando via Internet, fazendo reuniões em bares, colocando anúncios em cartazes e ônibus, se voluntariando para cozinhas comunais, catando lixo na beira da estrada e conquistando o reconhecimento de grupos ateus em avisos para adotar uma estrada. Eles comparam sua estratégia com a do movimento dos direitos homossexuais, que cresceu quando os membros da minoria marginalizada decidiram ir a público.

"Não é uma questão de protestar. A coisa mais importante é sair do armário", disse Herb Silverman, professor de matemática do Colégio de Charleston, que fundou o grupo dos Humanistas Seculares de Lowcountry, que tem cerca de 150 membros na costa das Carolinas.

As pesquisas mostram que as fileiras de ateus estão crescendo. Na Pesquisa de Identificação Religiosa Americana, grande estudo publicado no mês passado, o único grupo demográfico que cresceu em todos os 50 Estados nos últimos 18 anos foi o dos "sem religião".

Nacionalmente, os "sem religião" na população quase dobraram, de 8% em 1990 para 15% em 2008. Na Carolina do Sul, eles mais do que triplicaram, de 3% para 10%. Nem todos os "sem religião" são necessariamente ateus ou agnósticos fervorosos, mas perfazem uma amostra de possíveis patrocinadores do movimento.

Organizações locais e nacionais ateias prosperaram nos últimos anos, alimentadas por uma revolta com a adoção do direito religioso pelo governo Bush. Uma série de livros de sucesso sobre ateísmo também popularizou a noção que a descrença não é apenas um argumento, mas uma causa, como a ecologia ou a distrofia muscular.

Dez organizações nacionais que se identificaram como ateias, humanistas, livres pensadoras e outras que não acreditam em Deus recentemente se uniram para formar a Coalizão Secular da América, da qual Silverman é presidente. Esses grupos, que já foram rivais, agora estão reunindo recursos para fazer um lobby em Washington pela separação da Igreja e o Estado. Uma onda de doações, algumas de milhões de dólares, permitiu a contratação de mais organizadores profissionais, disse Fred Edwords, líder ateu antigo que acaba de começar seu próprio grupo, a Coalizão Unida da Razão, que planeja inaugurar 20 grupos locais em torno do país no próximo ano.

Apesar da mudança de atitude, as pesquisas continuam mostrando que os ateus têm classificação inferior a qualquer outra minoria ou grupo religioso quando se pergunta aos americanos se votariam em alguém do grupo ou aprovariam o casamento de seu filho com um membro daquele grupo.

Em um almoço com alguns novos membros dos grupos ateus em restaurante que servia camarão em Charleston, uma jovem mãe disse que seu marido tinha medo de permitir que ela se expusesse como ateia porque ele poderia perder chances de emprego.

A administradora escolar aposentada Beverly Long, que agora ensina educação na Citadel, contou sobre quando se mudou de Toronto para Charleston, em 2001: "A primeira pergunta que me faziam era à qual igreja eu pertencia". Ela participou de jantares em uma igreja metodista, pela interação social, mas nunca se sentiu em casa. Desde jovem, ela duvidou da existência de Deus, mas não discutia suas opiniões com os outros.

Ela encontrou os humanistas seculares por meio de um anúncio no jornal e participou de um encontro. Agora ela está pronta para assumir suas ideias, especialmente após fazer uma pesquisa genealógica. "Tive ancestrais que lutaram na Revolução Americana, então posso falar o que penso", disse ela.

Até recentemente, os Humanistas Seculares de Lowcountry eram párias. Silverman - cuja placa de carro, uma das muitas oferecidas pelo Estado, diz: "Na Razão Confiamos"- foi convidado a fazer uma invocação no Conselho da Prefeitura de Charleston, certa vez, mas metade dos membros deixou a sala. O capítulo local do grupo Habitat para a Humanidade não deixou os Humanistas Seculares se voluntariarem para construir casas usando camisetas que diziam "Organização sem Profeta", disse ele.

Em janeiro, quando os humanistas criaram o cartaz com seu endereço na Web proeminente, eles acreditavam que receberiam correspondências agressivas.

"Contudo, a maior parte dos emails era de agradecimento", disse Laura Kasman, professora assistente de microbiologia e imunologia da Faculdade de Medicina da Carolina do Sul.

A reunião dos membros do conselho na sala de estar dos Kasman era uma mistura improvável que incluía um dono de uma loja de presentes, um construtor, uma avó, um professor de enfermagem aposentado, um oficial da marinha na reserva, um administrador de um santuário de primatas e uma musicista de igreja. Os participantes também eram diversos em sua atitude em relação à religião.

Loretta Haskell, a musicista da igreja, disse: "Em certa altura, perguntei-me se deveria ou não fazer música nas igrejas, dada minha posição. Mas, ao mesmo tempo, gosto de usar minha música para elevar as pessoas, para dar-lhes conforto. E o que descobri foi que não sou uma humanista que acha que a religião é uma coisa ruim."

O grupo teve reações variadas ao presidente Barack Obama, que admitiu os descrentes em seu discurso inaugural. "Enviei a ele uma nota de agradecimento", disse Kasman. Porém, Sharon Fratepietro, casada com Silverman, disse: "Parecia uma longa cerimônia religiosa, com um momento de conversa".

Parte do que está dando impulso ao movimento á e proliferação de grupos em universidades. A Aliança Estudantil Secular agora tem 146 capítulos - tinha 42 em 2003.

Na Universidade da Carolina do Sul, em Columbia, 19 alunos apareceram em recente encontro noturno dos "Pastafarianos", nome nascido da Igreja do Monstro de Espaguete Voador -uma brincadeira popular da religião sonhada por um opositor do desenho inteligente, a ideia que os organismos vivos são tão complexos que a melhor explicação é que uma inteligência maior as projetou.

Andrew Cederdahl, um dos fundadores de grupo, pediu voluntários para o banco de alimentos local e para um debate com um colégio cristão próximo. Depois, Cederdahl abriu o plenário para os membros contarem suas "experiências de quando se assumiram".

Andrew Morency, que frequentou uma escola cristã, disse que quando foi para a faculdade e estudou biologia evolucionária decidiu que os "criacionistas mentem".

Josh Streetman, que freqüentou o mesmo colégio cristão com quem os pastafarianos iam debater, disse que conhecia a Bíblia bem demais para ter segurança que a Escritura é verdadeira. Como Streetman, muitos dos outros alunos da reunião eram altamente conhecedores da Bíblia e da história da religião.

Os líderes pastafarianos dizem que seu objetivo não é o confronto ou mesmo conversões, mas mudar o estereótipo de ateus. Uma atividade pastafariana é reunirem-se em um ponto movimentado do campus com um cartaz oferecendo "abraços gratuitos" de "seu vizinho ateu amigável".

Tradução: Deborah Weinberg

Postado por Alma Collins às 08h00 AM
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DO AMOR SÓ SOBROU O MITO

 

Depois de muito alvoroço

Depois de muito estardalhaço

Ele foi sumindo devagarinho

Como a morte de um palhaço

 

Sua partida foi com um zunido

Como o guarda com seu apito

Que me doeu os ouvidos

Do amor só sobrou o mito

 

Que faço agora

Sem o sentimento de outrora

O amor foi embora

No raiar da aurora

 

Volta sentimento

Mas sem ressentimento

Coloca um ungüento

Nesse teu sofrimento

E vem curar esse meu tormento.

Alma Collins


Postado por Alma Collins às 08h52 PM
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Postado por Alma Collins às 10h47 PM
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Pelo preço de uma cabra

Le Monde
Christophe Châtelot
Enviado especial a Niamey (Níger)
Em uma pequena casa de Niamey, capital do Níger, no fim de uma rua arenosa, Hadizatou Mani encara seu benfeitor, sentado ereto em uma cadeira, com um joelho para cima. Seu olhar obstinado se perturba, e ela esconde seu rosto em seu lenço rosa. "Você me pergunta: por que eu?" Silêncio. A nigerina de 24 anos hesita. "Mesmo que eu conte minha vida de antes, não posso esquecê-la". Então muitas vezes ela prefere se calar, ainda que, de forma confusa, ela sinta que deve compartilhar sua experiência "pelos (seus) filhos, pelas outras mulheres".

Seu olhar determinado traduz melhor do que as palavras a força que permitiu a essa jovem analfabeta ganhar sua liberdade diante de um tribunal internacional. A justiça a tirou definitivamente de sua condição de escrava, no dia 27 de outubro de 2008, e a expôs a uma fama repentina.

Por toda sua vida, Hadizatou quase não saiu de seu vilarejo de Dogaroua, na região de Tahoua, região desértica no centro de Níger. Mas, em 8 de março, ela posava entre a secretária do Estado, Hillary Clinton, e Michelle Obama em um salão de Washington, onde ela recebeu o Prêmio das Mulheres de Coragem. Uma recompensa por seu combate vitorioso - e das organizações de defesa dos direitos humanos - contra o Estado do Níger. Em 27 de outubro de 2008, o Tribunal Supremo de Justiça da Cedeao (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental) efetivamente condenou o Níger por sua incapacidade de ajudar a jovem a sair de sua condição de escrava, banida pela lei, ainda que não o seja pela prática.

"Fui vendida como uma cabra! Por US$ 500! Eu tinha 12 anos", ela nos conta. Seu meio-irmão, Koradi, se lembra desse dia como se fosse ontem. "A mãe de Hadizatou, também escrava, fugiu da casa de seu senhor. Muito tempo depois, ele encontrou uma pista sua. Então ele foi buscá-la. Minha mãe tinha se casado, e meu pai não deixou que a levassem. Em troca, pegaram duas de minhas meias-irmãs", lembra Koradi.

Hadizatou foi tirada de sua família e depois vendida, "como uma cabra", a um curandeiro charlatão, El-Hadj Souleimane Naroua, um homem de 50 e poucos anos membro da etnia Haoussa, dominante no Níger.

Seu pesadelo durou 12 anos, pontuados por "100 fugas", ela diz, pagas com o mesmo número de chicotadas. "Durante todo esse tempo, conta Koradi, só a revi uma vez, no dia em que ela chegou a nossa casa, semi-nua. Seu senhor havia batido nela com um chicote. Eu a levei de volta para a casa dele, pedindo por clemência. 'Hadizatou é pequena. Se você for gentil com ela, terá o que quiser dela,' eu lhe disse. Soulemaine nos dava medo".

Doze anos triturando sorgo, pegando água e catando lenha. Doze anos de abusos sexuais de onde nasceram quatro filhos, dos quais dois sobreviveram. Doze anos ao longo dos quais Hadizatou se tornou uma wahiya, uma quinta mulher. "O Alcorão autoriza a poligamia, mas somente quatro mulheres oficiais. Então, para provar sua riqueza, por uma questão de prestígio, alguns homens compram jovens garotas para fazerem delas suas wahiyas. Existe um verdadeiro comércio delas em Níger, onde uma jovem é negociada por 500 mil francos CFA (R$ 2.160), o dobro se ela for destinada à Nigéria", denuncia Moustapha Kadi, autor de uma obra sobre escravidão no Níger, "Um tabou brisé"[Um tabu quebrado] (Harmattan, 2005).

O senhor de Hadizatou tinha nove wahiyas. "Nós todas vivíamos perto de seus campos", conta Hadizatou. E Soulemaine Naroua tinha orgulho de seu harém tratado como gado. Assim como ele se gabava de suas relações no mais alto nível com juízes e políticos de Niamey.

As coisas começaram a mudar em 2003. Sob pressão internacional, o Níger adotou uma lei criminalizando a escravidão e autorizou as associações a entrarem com processos. A ONG nigerina Timidria esperava por isso desde sua criação, em 1991. Então ela organizou feiras itinerantes para explicar a nova legislação e esbarrou em Soulemaine Naroua. Ela o pressionou a assinar um "certificado de libertação" para Hadizatou e uma outra de suas wahiyas. Mas o homem tomou o cuidado de não informar às duas mulheres a existência desse formulário com o carimbo "República do Níger". A associação se encarregou disso vários meses depois, espantada de ver que Hadizatou não havia retomado sua liberdade. "Assim que me contaram, fugi para a casa da minha mãe", ela conta. Sua companheira de infortúnio não a seguiu. "Ela tinha medo demais", acrescenta a jovem.

Na verdade, Hadizatou ainda não chegara ao fim de seu sofrimento. Foi iniciada uma longa batalha judicial, durante a qual seu destino oscilou. As leis de costume desfizeram o que o código penal lhe concedeu. Um primeiro tribunal confirmou a liberdade reconquistada de Hadizatou, e um segundo julgamento a deixou dois meses atrás das grades. O seu ex-senhor alegou ser marido de Hadizatou, e esta foi condenada por bigamia - assim que foi libertada, ela havia se casado com seu amado.

"O juiz também é filho do chefe do vilarejo onde reina a lei de costume", ressalta Ilguilas Weila, presidente da associação Timidria. "Desobedecer ao chefe é o mesmo que desobedecer a seu poder espiritual, ou seja, Deus", acrescenta Moustapha Kadi, grande animador da sociedade civil nigerina e presidente de uma ONG de luta contra a escravidão. "Vivemos em uma república híbrida, própria do Níger, onde a autoridade tradicional se beneficia de um estatuto institucionalizado. Não é folclore, é integrado à administração. Ora, essas autoridades são um terreno fértil para a escravidão", denuncia Mahaman Tijani Alou, diretor científico do Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre as Dinâmicas Sociais e o Desenvolvimento Local (Lasdel).

O destino de Hadizatou, escrava e filha de escrava, parecia traçado. Apesar da persistência de Timidria, apesar da rebelião permanente da jovem. Até que a mais antiga organização de direitos humanos no mundo, Anti-Slavery International, entrasse no jogo. "Eles usaram meios dos quais não dispomos para levar esse caso diante da Suprema Corte da Cedeao", explica Moustapha Kadi. "Um advogado inglês e um outro, senegalês, pagos pela organização internacional Interights, além de um outro jurista inglês, um estagiário e um advogado nigerino trabalharam sobre o caso", conta Ilguilas Weila, da Timidria. "Os juízes da Cedeao não eram nigerinos, e a Corte da Cedeao tinha sido mudada para Niamey para não poder receber as testemunhas em Abuja (Nigéria), onde ela costuma ter sede".

Foram condições excepcionais que fizeram a sorte de Hadizatou, mas tornaram difíceis uma reprodução de seu caso. "Os dossiês se empilham, mas não ganhamos um único processo desde então. Os casos são enterrados, seja pelos juízes, seja pela polícia", confirma Ilguilas Weila. O Níger não faz dessa causa uma prioridade. O mau exemplo vem de cima, onde se prefere a negação ao risco de manchar a imagem do país. Durante uma viagem aos Estados Unidos, o presidente Mamadou Tandja repetiu a mensagem que ele passa internamente: "A escravidão não existe mais no Níger".

Em setembro, a Comissão Nacional de Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais concordava totalmente com o presidente: "Estando entendido que nos termos das conclusões do (nosso) inquérito as formas e práticas escravocratas não existem tais como definidas pelas convenções internacionais, o governo deverá fazer de tudo para preservar essa conquista fundamental".

Interrogado sobre o caso de Hadizatou Mani, o presidente da comissão, Mamoudou Djibo, nomeado pelo chefe do Estado, apresentou "a herança da tradição" para encontrar circunstâncias atenuantes no sistema das wahiyas. O porta-voz do governo esquivou-se. "A decisão da Cedeao prova que o Níger é um Estado de direito onde os cidadãos têm recursos às instâncias supranacionais", explica Mohamed Ben Omar, antes de acusar as ONGs de engrossar os números sobre a escravidão para "sustentar seus fundos e receber dinheiro do exterior".

A avaliação do número de escravos alimenta a polêmica. Algumas estimativas falam de 800 mil escravos, em uma população nigerina de 14,7 milhões de habitantes. "Isso inclui os descendentes de escravos", explica Mahaman Tijani Alou. O que faz sentido, segundo Ilguilas Weila: "Todos esses infelizes carregam os estigmas de seus antepassados. Eles são discriminados, vivem de forma marginal em vilarejos esquecidos".

A Anti-Slavery International divulga o número de 43 mil escravos, e Moustapha Kadi, de 8 mil. Mas todos concordam em um ponto: a condição das "quintas mulheres" é inaceitável, mas não é a pior (seus filhos, em especial, herdam de seu senhor); existe uma escravidão ainda mais dura, onde homens e mulheres passam a vida a serviço de um senhor que tem direito de vida e de morte sobre eles. "Eles são em quantos? O número não tem importância. Se houver só um, já é demais", diz Mahaman Tijani Alou.

Hadizatou espera agora que o Estado lhe pague 10 milhões de francos CFA (cerca de R$ 43.200) por perdas e danos. Com isso, ela construirá uma casa, comprará terras e animais. "E, sobretudo, recuperarei meus filhos", ela diz. Os juízes não lhe confiaram a guarda "por falta de meios de subsistência". "Logo terei dinheiro e poderei recuperá-los, e eles irão à escola".

Tradução: Lana Lim

Postado por Alma Collins às 11h02 PM
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Crise deverá atingir o tratamento de portadores de HIV

Financial Times
Andrew Jack
Em Londres (Inglaterra)
O tratamento com remédios do qual depende a vida de até 1,7 milhão de pessoas com HIV está ameaçado devido às pressões orçamentárias provocadas pela crise financeira global, segundo uma análise divulgada na sexta-feira pelo Banco Mundial.

Uma pesquisa sobre o impacto da recessão econômica em 69 dos países mais pobres do mundo mostrou que 15 acreditam estar "altamente expostos" ao risco de interrupção dos medicamentos antirretrovirais devido ao declínio nos recursos externos e domésticos.

Os resultados acentuam o risco para as vidas humanas e de resistência ao medicamento, após a rápida expansão do tratamento contra HIV para 3,4 milhões de pessoas ao redor do mundo desde o início da década.

Eles se somam aos recentes alertas do Banco Mundial de que saúde, educação e outros serviços sociais sofrerão uma pressão severa, com um estudo sobre crises financeiras anteriores sugerindo que entre 200 mil a 400 mil crianças com menos de cinco anos morrem a mais a cada ano em consequências de cortes orçamentários.

Joy Phumaphi, vice-presidente do Banco Mundial para desenvolvimento humano e ex-ministra da saúde de Botsuana, disse: "Este novo relatório mostra que as pessoas com Aids podem estar em risco de perder seu lugar no bote salva-vidas. A recessão econômica global representa uma bola de demolição contra o crescimento e progresso dos países em desenvolvimento".

Com a relutância dos governos em suspender o tratamento aos pacientes que já estão sendo tratados, os dados sugerem que os programas de prevenção e outras políticas voltadas a conter a rápida disseminação da doença são os que podem sofrer mais.

Trinta e quatro países, representando três quartos das pessoas que convivem com o HIV, disseram esperar que os programas de prevenção ao HIV para aqueles com maior risco de infecção serão afetados de forma negativa.

Jon Liden, do Fundo Global de combate à Aidas, tuberculose e malária, disse: "Todos sabiam que após iniciado, o fornecimento contínuo de medicamentos era uma promessa para toda a vida. Nós estamos falando de uma série de compromissos globais que o mundo não pode abandonar".

Ele disse que o fundo conta com compromissos de seus governos doadores pelo menos até 2011-2012, apesar de haver sinais de um possível arrocho na mais recente rodada de pedidos, a nona.

Segundo Liden, o fundo pode estar disposto a considerar mais rapidamente recursos adicionais para os países que pedirem ajuda para resolver crises orçamentárias de curto prazo, visando manter os gastos em saúde.

Entretanto, ele destacou que pedidos neste sentido ainda não foram feitos, e que o fundo não estaria disposto a autorizar a ajuda adicional caso o dinheiro fornecido permita que os países desviem seus orçamentos domésticos para atividades não ligadas à saúde, como defesa.

O Banco Mundial disse que os pedidos de ajuda por parte dos países em desenvolvimento para o atual ano financeiro triplicaram em comparação há 12 meses, em um sinal dos esforços para evitar os efeitos da recessão. Até o final de seu ano financeiro em 30 de junho, ele prevê uma autorização de US$ 3,1 bilhões, em comparação a US$ 1 bilhão no mesmo período no ano passado.

Tradução: George El Khouri Andolfato


Postado por Alma Collins às 06h42 AM
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