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Regiões ameaçadas do planeta tornam-se pontos turísticos de sucesso

François Bostnavaron

A imaginação dos organizadores de viagens não tem limites. Depois do turismo de lugares em guerra, o turismo sombrio - "dark tourism", dedicado a lugares associados com morte ou destruição, como o Ground Zero, as prisões, os cemitérios ou os campos de concentração - investe no turismo rotulado de "planeta em perigo".

Segundo os profissionais do setor, esse tipo de turismo tem futuro e já vivencia um sucesso crescente. De acordo com Ken Shapiro, redator-chefe da revista especializada americana "TravelAge West" , em declaração à agência de notícias AFP durante a Fitur (Feira Internacional de Turismo) que aconteceu em Madri no fim de janeiro, cada vez mais "as pessoas visitam os lugares que elas acham que vão mudar, e elas querem vê-los antes disso". Para Shapiro, esse "turismo de catástrofes ecológicas", um fenômeno que apareceu há cerca de dois anos, está se tornando um "filão importante" dentro do setor.

Ainda que notem efetivamente um interesse crescente por esse tipo de turismo, os agentes de viagem negam que seja um comportamento novo.
"Não é um fenômeno recente", explica Yannick Briand, diretor-geral da 66º Nord, operadora de Lyon especializada em excursões a terras polares. "Essa conscientização data de uns vinte anos, e apareceu junto com a noção de respeito ao meio ambiente", diz Briand. "Mas hoje aparecem novas motivações: por causa da mudança climática, as geleiras vão derreter e é preciso visitá-las antes que elas desapareçam!", ele admite. Consequentemente, há uma incontestável nova atração pelas terras polares. "Mas", ele relativiza, "o volume de viajantes permanece muito discreto".

A agência 66º Nord leva cerca de mil viajantes por ano para terras polares. A viagem do tipo "planeta em perigo" não é para qualquer um: tanto do ponto de vista financeiro, pois custa em torno de € 3 mil por pessoa para 10 dias, quanto em termos de conforto, uma vez que, apesar do preço, a estadia é quase sempre muito espartana. E até perigosa, como mostrou o naufrágio na península antártica, em 18 de fevereiro, de um navio de cruzeiro cujos 106 passageiros tiveram de ser evacuados. Enfim, essas excursões exigem uma boa condição física.

Circuito dos ursos polares
Na Terres d'Aventure, filial da Voyageurs du Monde (VDM), também se confirma que esse tipo de viagem está na moda. "Há uma marca que funciona bem na Terres d'Aventure: Grand Nord, Grand Large, viagens para as regiões ártica e antártica, há 18 meses", constata Jean-François Rial, proprietário da VDM. Uma demanda que, no entanto, só representa 2.200 clientes por ano. Ele organiza cruzeiros com palestras sobre aquecimento climático, por exemplo, com o famoso glaciólogo francês Claude Lorius.

"Este ano", explica Lionel Habasque, dono da Terres d'Aventure, "vamos refazer o trajeto da expedição de Paul-Émile Victor em antigos barcos de exploração russos". Mas um dos grandes destaques da Terres d'Aventure continua sendo a viagem a Churchill, na baía de Hudson (Canadá): nove dias entre outubro e o início de novembro (€ 4.500) para ver ursos polares. Nessa época, mais de 300 deles ficam parados em cerca de 50 quilômetros entre o cabo e o vilarejo, esperando a formação da banquisa, que lhes permite voltar para seu território de caça.

Mas os ursos polares não são os únicos objetos de todas as atenções.
Na Terres d'Aventures, a floresta amazônica também possui seus fãs. Eles ainda não são muitos, mas pelo menos uma centena desembolsa de € 5 mil a € 6 mil por ano para caminhar no coração da floresta em zonas muito recuadas. "São turistas que nunca largam lixo para trás", observa Habasque.

 


Postado por Alma Collins às 10h07 PM
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É bonito ser hippie, mas difícil

El País
Julián Díez
Em tempos difíceis, um sonho se dissemina: romper com tudo. Acabar com a instabilidade no trabalho, com a dependência da Bolsa ou a baixa qualidade dos alimentos que consumimos, buscando uma vida mais simples e com satisfações mais básicas. Há décadas, centenas de pessoas apostaram nesse caminho alternativo; embora com sorte irregular, essas diferentes sociedades convivem com a nossa.

A opção das comunidades anarquistas urbanas, nas quais se mantém uma relação contínua com a cidade e existe o problema do conflito com a lei, não satisfaz esses imitadores de Henry David Thoreau, o escritor americano que viveu dois anos sozinho em uma cabana e depois escreveu: "Fui para a floresta porque ... quis viver profundamente e descartar tudo aquilo que não fosse vida ... para não perceber, no momento de morrer, que não tinha vivido".

As dificuldades são enormes: uma exposição direta ao clima a que não está habituado quem vive na cidade, a necessidade de adquirir conhecimentos com os quais se transformar em autossuficiente... E, no caso de entrar em uma sociedade já existente, as incertezas na hora de se inserir em um grupo muito fechado ao exterior, sobre o qual é difícil se informar previamente, e no qual a relação estreita causa frequentes choques de personalidade. A maior parte dos experimentos mal chega ao segundo inverno, estação em que as dificuldades afloram em toda a sua crueza.

É difícil calcular quantas pessoas na Espanha optaram por dar as costas à sociedade convencional. Não há dados a respeito. Se nos ativermos aos participantes de algumas reuniões como a da Ecoaldeas, no verão passado, e à atividade em websites, e aplicarmos um arredondamento realista para cima, poderemos falar em no máximo 2 mil pessoas.

Essa reunião da Ecoaldeas, com a presença de 30 iniciativas, foi realizada em um dos povoados desse tipo pioneiros na Espanha: Matavenero, nas montanhas de El Bierzo (León). Há poucos anos é possível chegar a ela com bom tempo por uma estrada de terra construída pela empresa que administra um parque eólico próximo. Mas o caminho fica gelado no inverno e o acesso só pode ser feito a pé, depois de horas de caminhada desde a localidade de San Facundo.

Matavenero e a vizinha Poibueno, duas aldeias abandonadas, começaram a ser ocupadas por volta de 1989, em uma iniciativa na qual tiveram importante participação ecologistas alemães. Os povoados, muito isolados em um vale escarpado, estavam abandonados havia anos, e os primeiros repovoadores moraram em tendas indígenas em vez de reconstruir sobre as casas que tinham queimado em diversos incêndios. Seu isolamento, que dificultou o desenvolvimento da comunidade, possivelmente tornou possível sua sobrevivência: ninguém reclamou as ruínas, progressivamente ocupadas, as autoridades passaram por alto sua existência e hoje fazem parte aceita da paisagem da comarca.

A maior parte dos habitantes de Matavenero, que chegaram a 120 mas hoje andam pela metade, trabalha fora do povoado ajudando em tarefas agrícolas, na construção ou vendendo artesanato que elaboram ali. As crianças - nasceram 35 desde a ocupação do povoado, inclusive há algum neto de fundadores - vão ao colégio em San Facundo. Nas últimas geadas, porém, boa parte dos habitantes que estavam fora não pôde voltar durante dias.

A comunidade toma as decisões em um conselho, por votação, e no demais cada qual faz sua própria vida: existe a propriedade privada e se usa o escambo para trocar bens e serviços. Os novos devem permanecer um ano vivendo em uma das casas comunitárias reabilitadas antes que o conselho os autorize a construir a sua: em particular, deseja-se que sofram um inverno - incluindo duchas na cascata do rio - para evitar abandonos.

As normas comuns são principalmente de caráter ecológico: proibição de motores no interior da localidade, o uso de painéis solares para conseguir energia elétrica, se desaprova o consumo de bebidas alcoólicas fortes, tabaco ou drogas; e o emprego de latrinas secas, nas quais os dejetos são utilizados para compostagem. Só existe um telefone no povoado e só se atende uma hora por dia. Há uma jornada de trabalho comunitário às quintas-feiras; nessas sessões, construíram o chamado Dome, onde se realizou a reunião da Ecoaldeas. Entre os participantes dessa reunião estavam representantes do projeto valenciano Ponte do Arco-Íris. Cerca de 20 adultos - com uma dezena de crianças - estão prestes a formar uma cooperativa para adquirir uma fazenda de 100 hectares a cerca de 40 minutos de Valência, e pretendem passar a viver lá nesta primavera.

"Hoje não há na Espanha nenhum modelo semelhante ao que queremos desenvolver", explica um de seus fundadores, Manuel Alamar. Em sua casa e nos terrenos adjacentes, os integrantes do grupo praticam a construção - incluindo com materiais alternativos como palha - e a agricultura.

A diferença básica entre Ponte do Arco-Íris e outros projetos é seu desejo de se transformar em modelo, sua maior conexão com a sociedade; por exemplo, pretendem realizar todo o seu desenvolvimento legalmente, "sem a tensão que representa ocupar ilegalmente um lugar", pagando impostos e efetuando todas as gestões correspondentes. Alamar se entusiasma quando explica suas motivações para escapar do contexto urbano: "Tenho certeza de que há muita gente que todos os dias se pergunta se vale a pena trabalhar 40 anos em uma coisa que não lhe agrada para pagar a hipoteca de um apartamento minúsculo, ou se compensa estar sempre se esforçando para conseguir tão pouco. Viver é muito mais simples. Esperamos demonstrar isso para muita gente que tem essas dúvidas".

O terreno que em breve comprarão os cooperativistas do Arco-Íris não tem a qualificação de solo urbanizável, muito cara. Custa 10 mil euros por adulto, restituíveis em caso de abandono da comunidade. Viverão inicialmente em ruínas comunitárias para depois ir construindo aos poucos, com prudência para não violar as leis urbanísticas. Falam em compartilhar muitas propriedades, não só a moradia: também carros ou certos bens. Pretendem viver da agricultura, assim como de tarefas diversas pela comarca, e incorporar paulatinamente - na medida em que se aproximem dos 100 habitantes que têm como objetivo - trabalhos como educação e alojamentos rurais.

"Não temos medo de trabalhar, mas esperamos em médio prazo conseguir uma grande qualidade de vida com um esforço não muito grande", explica Alamar, que está "impaciente" para jogar sua primeira partida de futebol com os companheiros, em sua própria terra. Admite certa "preocupação espiritual", considerando a espiritualidade "algo pessoal e de sentido comum, sem que o afaste da família ou dos amigos". Além disso, colocarão em prática os três "erres" básicos da vida ecológica: reciclar, reduzir e reutilizar.

A crise econômica fez mais pessoas se interessarem pelo projeto. "Às vezes comentamos que chegamos dois ou três anos atrasados, que se já tivéssemos todo esse trajeto poderíamos cumprir nosso objetivo e também servir de exemplo para outras pessoas que têm as mesmas inquietações. As dificuldades administrativas são grandes, mas creio que já estamos encontrando um caminho que poderá ser útil para outros." Diversas comunidades em vários pontos da Europa, como Findhorn na Escócia ou Sieben Linden na Alemanha, têm décadas de existência com funcionamento semelhante.

Além das ecoaldeias existem outras comunidades de corte mais ligado ao movimento hippie ou à contracultura dos anos 1960, especialmente nas ilhas Baleares, embora nenhuma tenha tido uma vida contínua desde então. A comunidade Lakabe, em Navarra, considerada a decana das ecoaldeias - foi criada em 1980 -, representa, por sua combatividade e longevidade, uma espécie de elo perdido entre essas comunidades e as atuais.

Também existem outras comunidades ligadas ao cristianismo. Afinal, historicamente, os que desejavam se retirar do mundo encontravam a saída nos mosteiros. Além das conhecidas comunidades de religiosos ordenados, existem outras às quais os laicos têm acesso, incluindo casais.

A mais famosa na Espanha é Turballos, nas serras de Alicante. Seus porta-vozes não permitem o acesso de jornalistas, mas convidam para visitá-los, a título pessoal, os que telefonam. Fundada há 30 anos pelo sacerdote Vicente Micó, declara-se "comunidade ecumênica, da não-violência e desnuclearizada". Residem ali de forma fixa cerca de 20 pessoas. O povoado foi lindamente restaurado e mantém boas relações com seus vizinhos.

A vida de Turballos se divide entre a oração e o trabalho, com cujos frutos se mantém. Seguem a ideologia de um italiano discípulo de Gandhi, Giuseppe Lanza del Valle, que morreu na comarca depois de uma vida aventureira no mundano e no espiritual. "Nos esforçamos para limitar nossas necessidades e não cair no consumismo que contribui para a exploração do Terceiro Mundo." A comunidade é estritamente vegetariana e realiza uma jornada de jejum e silêncio às sextas-feiras. As orações não correspondem estritamente à ortodoxia católica atual: "Recebemos qualquer pessoa, independentemente de sua crença religiosa, respeitando seu caminho e sua fidelidade a sua tradição".

Além das alternativas ecológicas e espirituais, outras apostas continuam vivas em alguns pontos da Espanha. É o caso de Marinaleda, localidade de Sevilha de 2.700 habitantes, famosa por ser a origem do Sindicato de Operários do Campo, e na atualidade praticamente comunista. O fundador do Sindicato, Juan Manuel Sánchez Gordillo, é prefeito há quase três décadas com maiorias absolutas imbatíveis. Depois de anos de luta, Marinaleda conseguiu expropriar os 1.200 hectares de uma fazenda de propriedade do duque del Infantado. O produto da terra - alcachofras, pimentões, azeitonas - se transforma em oito cooperativas que dão trabalho a todo o povoado. Oficialmente não há desemprego e todos ganham a mesma coisa, pouco mais de 1 mil euros.

O povoado enfrenta o problema da moradia com métodos semelhantes: todo o solo rústico foi municipalizado e se abriu a porta para que qualquer morador construísse sua residência de 90 metros quadrados, com a ajuda de pedreiros da prefeitura. O proprietário paga os materiais e depois um aluguel vitalício de 15 euros mensais.

Sánchez Gordillo é acusado de stalinista por seus rivais políticos, e é fato que nas últimas ocasiões em que representantes de outros partidos passaram por Marinaleda houve desordens públicas notáveis. No entanto, ele exibe a situação de seu povoado e argumenta que nele se vê o melhor exemplo contra a crise: "Isto foi apenas a demonstração do fracasso total do livre mercado. A única alternativa é o emprego público. Quanto ao governo, que deixe de dar dinheiro aos bancos e ajude o pequeno agricultor e os diaristas".

A vida vermelha de Marinaleda se estende ao cotidiano, por exemplo, com um calendário próprio de festividades. A Semana Santa ali é a Semana pela Paz, com apresentações de Paco Ibáñez ou Jarcha em vez de procissões. Nem sequer os domingos são exatamente festivos. Uma ou duas vezes por mês se convoca uma jornada de trabalho. "Quase não se pagam impostos, mas de vez em quando é preciso reunir todos para fazer obras públicas. Eu passeio na véspera pelo povoado com um megafone para avisar, e quase todo mundo contribui, exceto os que têm algum problema pessoal", afirma o prefeito.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Postado por Alma Collins às 08h22 AM
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Para alimentar a humanidade, bastaria desperdiçar menos

Le Monde
Laurence Caramel
Em Nairóbi
A cada dia, o planeta recebe 200 mil novas bocas para alimentar. Até 2050, a população mundial deverá atingir 9,2 bilhões de indivíduos, contra os 6,7 bilhões de hoje. A resposta mais comum a esse desafio é dizer que será necessário aumentar a produção mundial de alimentos em 50% até lá.

Não é o que sustenta o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) em seu relatório dedicado à crise alimentar, publicado na terça-feira (17) durante sua reunião anual em Nairóbi. Para escapar da armadilha das crescentes demandas alimentares, a organização privilegia a reciclagem de milhões de toneladas de alimentos que hoje são perdidos ou desperdiçados, e afirma que uma melhor eficácia da cadeia de produção alimentar permitiria que ela sozinha alimentasse o excedente de população esperado para 2050. "Esse caminho foi até hoje muito pouco explorado, enquanto ele também teria a vantagem de reduzir a pressão sobre as terras férteis e de limitar o desmatamento", lamenta o PNUMA.

Concorrência pelas terras
O relatório cita diversos exemplos que, ainda que não sejam novidade, ilustram bem a fragilidade de muitas agriculturas de países pobres, expostas às pragas vegetais, aos péssimos meios de armazenamento, à falta de transporte... mas também o desperdício de nossas sociedades de abundância. No Reino Unido, um terço da comida comprada não é consumida, e nos Estados Unidos, as perdas observadas no nível dos diferentes sistemas de distribuição são estimadas em US$ 100 bilhões por ano. A título de comparação, as demandas do Programa Alimentar Mundial, que socorre as populações famintas, aumentaram para US$ 3,5 bilhões de dólares em 2008.

No total, quase a metade da produção alimentar mundial hoje é perdida, deixada de lado porque ela não corresponde às normas do mercado ou é desperdiçada durante o consumo. O PNUMA também observa que 30 milhões de toneladas de peixe são jogadas de volta ao mar a cada ano. É um volume que bastaria, segundo a organização, para garantir a metade das demandas suplementares de pesca até 2050 para manter o nível de consumo de peixe por habitante no nível atual.

O PNUMA argumenta ainda que a valorização desses "resíduos" serve para alimentar o gado, para que uma parte crescente da produção mundial de grãos não vá parar na alimentação de animais. Um terço dos grãos é hoje destinado a ela, e aumentará para 50% até 2050 se as tendências se confirmarem. A organização lembra que isso poderia ter consequências graves sobre o abastecimento das populações cuja metade do consumo calórico diário depende de cereais.

Mas o relatório não para aí. Ele sugere também que a reciclagem dos resíduos seja orientada para a produção de agrocombustíveis, para limitar ainda a concorrência pela exploração das terras que causa a disparada dos preços e a crise alimentar.

Tradução: Lana Lim

Postado por Alma Collins às 10h39 PM
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Postado por Alma Collins às 08h05 PM
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