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DESCOBERTA

 

O menino pequeno

Olha aquela imensidão de água

Medo? Não

Simplesmente a força que impulsiona

Ao desconhecido

 

Várias tentativas

Frustrações de certo

Eis que chega a hora

Do conhecimento parido

Do rumo correto eclodido

No desabrochar da descoberta

 

Consegue-se tateando

Aos poucos pisando

Num terreno movediço andando

Até que se encontra a idéia concretando

E se descobre vívido, capacitando

Alma Collins


Postado por Alma Collins às 08h32 AM
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Postado por Alma Collins às 06h58 PM
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Ex-professora que virou tema de filme vive com 50 filhos em casa de nove cômodos no Rio

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo
Ela enfrentou os traficantes de drogas e a Justiça para conseguir tirar seus filhos adotivos da violência da favela. Chegou a dormir na rua, fugiu da polícia e estampou os jornais, sendo chamada de "sequestradora", mesmo depois de ter acolhido dezenas de crianças que sobreviveram à chacina na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1994.

A saga desta mulher de rosto doce e nome de flor virou filme ("Flordelis - Basta Uma Palavra Para Mudar") nas mãos do produtor de moda Marco Antônio Ferraz e do cineasta Anderson Corrêa. Em entrevista ao UOL Notícias, a ex-professora pública e ex-moradora da favela do Jacarezinho Flordelis dos Santos, de 48 anos, contou um pouco de sua vida ao lado dos 50 filhos - quatro biológicos e 46 adotivos - que hoje têm entre 2 e 34 anos e dividem com ela uma casa de nove cômodos em Niterói (RJ).
UOL - Como tudo começou?
Flordelis -
Minha história começa na favela do Jacarezinho, onde eu fui criada. Cresci vendo um monte de situações difíceis, meninos se envolvendo no tráfico de droga e nos vícios. Em 1993, decidi fazer alguma coisa. Então, saía de casa toda quinta-feira de madrugada sozinha para subir os morros e falar com os meninos, conquistá-los e tentar tirá-los do vício. Por causa desse trabalho, eu me tornei uma referência na favela. Até que um dia, a mãe de um menino me procurou para dizer que o filho dela tinha sido levado para ser assassinado. Fui atrás, descobri onde ele estava e consegui trazê-lo comigo. Vi que meu trabalho estava dando certo quando consegui tirar esse menino do paredão da morte do tráfico. Ele tinha sido pego para ser fuzilado e tinha apenas 13 anos. Foi aí que tudo começou na minha vida.

UOL - Você sempre teve vontade de ter uma família grande?
Flordelis -
Não. Não foi nada planejado, nunca planejei ter tantos filhos ou ter uma família grande. Foi uma coisa que aconteceu na minha vida, por causa do meu trabalho. Primeiro, cinco adolescentes da favela vieram morar comigo. Eles tinham vindo do tráfico e queriam mudar de vida. Mais ou menos um ano depois, eu fui até a Central do Brasil atrás de uma menina que tinha fugido de casa também por causa de drogas. Não encontrei a menina, mas achei a primeira bebê, a Rayane, que tinha 15 dias e tinha sido jogada no lixo. Levei-a para minha casa. A mãe foi junto comigo, arrependida, mas depois não quis ficar com a criança. Então, eu fiquei.

UOL - E como foi o dia da chacina?
Flordelis -
Um mês depois de ter achado o bebê, houve uma matança de crianças na Central do Brasil. Um carro passou atirando no calçadão onde elas estavam dormindo. Como a mãe da Rayane já sabia o meu endereço, juntou todo mundo e levou para minha casa. De uma vez, apareceram na minha porta 37 crianças. Catorze delas eram bebês que tinham entre um e três meses.

UOL - Deve ter sido uma loucura...
Flordelis -
Foi uma loucura! Eu não tinha me programado para isso, não estava preparada. Era madrugada quando essas crianças chegaram na minha casa contando essa história. Eu fui até a Central do Brasil para verificar se era verdade. Infelizmente, era. Uma menina de 1 ano e seis meses tinha sido morta e uma de três anos estava baleada, tinha uma bala no fígado. Hoje, ela tem 19 anos e mora comigo.

UOL - Como você conseguiu abrigar todo mundo?
Flordelis -
Minha casa na favela era pequena. Tinha uma sala, dois quartos, cozinha e banheiro. E eram muitas crianças... Mesmo sem espaço físico, eu resolvi ficar com elas, porque elas vinham de uma situação muito difícil. E como eu não tinha condições de alimentar todo mundo, eu procurei o Betinho [sociólogo Herbert de Souza, fundador do projeto Ação da Cidadania]. Ele mandou comida para minha casa durante 6 meses.

Quando ele já estava debilitado [Betinho sofria de Aids e morreu em 1997 vítima de uma hepatite C], querendo me ajudar, ele acionou um canal de televisão e eu fui entrevistada. Foi aí que as pessoas souberam que tinha uma mulher na favela com um monte de crianças. Já fazia mais de 9 meses que elas moravam comigo quando eu recebi a primeira intimação do Juizado de Menores.  

UOL - E como foi a briga com a Justiça?
Flordelis -
Compareci ao Juizado e eles queriam que eu entregasse as crianças. Eu já tinha obedecido a uma ordem dessas, entregando um menino, e ele foi assassinado pelo pai quase duas semanas depois. Por isso, decidi enfrentar a Justiça e não entregar ninguém, porque eles não eram mais moradores de rua, eles eram meus filhos. No dia seguinte, tinha um mandado de busca e apreensão das crianças e um de prisão para mim, caso eu não obedecesse. Resolvi fugir de Jacarezinho para Irajá [bairro do subúrbio do Rio] com todas as crianças. Fiquei escondida por quatro meses na casa de um moço que me deu abrigo. Quando nos encontraram em Irajá, enquanto eles batiam na porta da frente, a gente conseguiu fugir pela porta da garagem. Nesse dia, tivemos que dormir literalmente na rua. Depois, nos deram novamente abrigo. Desta vez, na favela de Parada de Lucas, na associação de moradores do bairro.

Nessa época, eu saí em todos os jornais como a sequestradora de crianças. Falavam horrores ao meu respeito, que eu tinha sumido com 46 crianças. Então, resolvi me apresentar à imprensa para que eles pudessem me ouvir. Depois que eu contei a história, uma advogada se ofereceu para me ajudar e fomos ao Juizado de Menores. Já era um novo juiz e ele me ouviu, disse que eu não podia ficar na favela e fez um monte de exigências, casa com seis banheiros, três quartos. Mas eu aceitei o desafio e começamos a mudar. Desde então, já nos mudamos 15 vezes.

UOL - E como foi o processo de adoção?
Flordelis -
Foi muito difícil... Não é fácil adotar tantas crianças, né? O processo de adoção é lento. As pessoas não entendem o fato de eu ter uma família grande e acham que tudo isso é uma loucura. Eu já ganhei 36 processos, mas ainda estou esperando o de 14 crianças. A maior dificuldade é eles ficarem tentando a reintegração familiar. A criança, depois de certa idade, deveria ser ouvida e poder escolher com quem quer ficar. A criança é violentada dentro de casa, pela família biológica, não suporta as agressões e os maus tratos, por isso que ela vai para rua. Ninguém foge porque é bem tratado. E eles ficam tentando reintegrar essa criança a essa mesma família.

UOL - Conta um pouco da história dos seus filhos...
Flordelis -
Além da bebê que eu achei no lixo, eu tenho o Carlos, o meu mais velho, que era guardador de armas do tráfico na favela e hoje está totalmente recuperado. Tem também meu filho que foi gerente do tráfico e hoje faz faculdade de Direito. De gerente de tráfico a advogado é um pulo muito grande, né? A gente está mostrando que é possível mudar.

UOL - Como os traficantes reagiram quando você pegou essas crianças?
Flordelis -
Teve represália, teve ameaça de morte, claro que teve. O início foi muito difícil e complicado, mas depois eles começaram a entender que eu estava fazendo o bem, tentando ajudar e evitar que os meninos fossem presos ou mortos. Depois que eles foram entendendo isso, passaram a me respeitar.

UOL - Você teve medo?
Flordelis -
Eu estava determinada... Não conseguia sentir medo. A minha família tinha medo das ameaças, mas eu não conseguia acreditar que eles poderiam fazer alguma coisa comigo, porque eu não estava fazendo nenhum mal para eles. Me perguntam se eu faria de novo. Eu faria tudo de novo e passaria por tudo de novo para ter o que eu tenho hoje. Só me arrependo de uma coisa: ter entregue o meu filho à Justiça. Para mim, isso é um sofrimento muito grande. Eu durmo com essa culpa e acordo com essa culpa. Eu não deveria ter entregue. Quando ele chegou, não tinha nome, eu ia chamá-lo de Bernardo. Mas não foi possível... Não deu tempo. Meu filho foi enterrado como indigente, depois de ter sido assassinado pelos pais. Os pais fugiram, óbvio. Eu fui até o hospital tentar enterrá-lo, mas não me deixaram e diziam que eu não era nada dele.

UOL - E como é a sua rotina hoje? Como é cuidar de tanta gente?
Flordelis -
Hoje é tranquilo, os mais velhos me ajudam. Claro que ter uma família grande tem suas dificuldades, mas o mais difícil já passou. Não foi fácil passar por tudo o que eu passei. Naquela época, eu tinha de cuidar de 14 bebês, acordar de três em três horas, dar mamadeira para essa turma toda e eu só contava com a ajuda do meu marido. Hoje somos uma família muito unida, meus filhos são meus amigos, meu braço direito.

UOL - E como você faz para sustentar e cuidar de todo mundo?
Flordelis -
Os irmãos Pedro e Carlos Werneck, do Instituto da Criança, pagam o aluguel. O restante eu tiro do meu trabalho como cantora gospel.

UOL - Você pretende adotar mais gente?
Flordelis -
Não sei... Não posso dizer nem que sim nem que não. Hoje eu diria que não, porque eu quero dar uma vida digna para os meus filhos. E eu trabalho muito para isso, porque criança não precisa só de comida e roupa, né? Mas depende da situação, não posso dizer que isso nunca mais vai acontecer na minha vida.

UOL - Como foi participar do filme?
Flordelis -
Nunca pensei em ser atriz. Mas o Marco [Antônio Ferraz] veio com o projeto e me chamou para fazer o meu próprio papel. Foi uma experiência boa, nova. Com o lucro do filme a gente vai poder comprar a minha casa e parar de pagar aluguel.

Postado por Alma Collins às 09h36 PM
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Mulheres de rua são párias da sociedade argelina

Le Monde
Marie Nelle
Enviada especial a Argel
Desde seus 18 anos, Linda vive nas ruas de Argel. Essa jovem vinda de Ouargla, no sul do país, hoje tem 28. "Vivo uma guerra", ela suspira. Seu rosto suave e redondo envolto em um hijab rosa contrasta com essa personalidade forjada por dez anos de vida sem teto. Ao sair do orfanato argelino para o qual sua madrasta adotiva a enviou quando tinha 11 anos, ela fugiu para evitar um casamento forçado. Há sete anos teve um filho com um homem de quem ela não quer mais falar, uma "grande besteira" da qual, no entanto, ela não se arrepende, pois foi a única coisa que ela escolheu. Seu filho Zacaria viveu três anos com ela, depois ela o entregou à uma família adotiva. A vida na rua era dura demais para uma criança.

Não é raro cruzar, nas calçadas de Argel, com mulheres, às vezes com seus filhos pequenos, escondida em seus véus e cobertas. Como Linda, elas fugiram depois de um casamento forçado, um divórcio, um incesto, uma gravidez ou uma relação sexual fora do casamento.

Foi nos anos 1980 que surgiu o fenômeno. Em 1984, a adoção do Código da Família, inspirado na sharia, estabeleceu uma desigualdade de posição entre o homem e a mulher. A mulher não pode se casar sem a autorização de seu tutor; no caso de uma herança, ela só tem direito à metade da parte de um homem; em caso de divórcio, ela fica com os filhos enquanto o marido permanece com a casa; e a poligamia e o divórcio são privilégios do homem. Tantas discriminações, apesar do abrandamento do código em 2005, empurraram as mulheres argelinas para as ruas.

"A criação da 'SOS Femmes en détresse'[SOS Mulheres em Perigo] em 1992 atendeu a uma necessidade urgente", lembra Myriam Belala, presidente dessa associação, "e depois constatamos que as mulheres não eram vítimas somente do Código da Família, mas sim da violência familiar em geral. Ser proibida de continuar seus estudos ou trabalhar, não poder sair, ser uma escrava doméstica... Cada vez mais mulheres recusam essas imposições". O chalé azul e branco da associação possui sete apartamentos nas partes altas da capital. É um dos únicos abrigos da Argélia destinados às mulheres vítimas de violência.

Myriam Belala conta a história de Amina que, após seu divórcio, não pôde voltar para a casa da família onde estavam cunhadas e sobrinhos; e a de Meriem, rejeitada por sua família pois ela achou injusto não ter sua parte da herança. Recém-trazidas pela polícia que as recuperou das ruas, as duas foram alojadas em locais da associação; uma recebeu uma proposta para formação em costura, e a outra, um emprego como empregada doméstica.

Mas muitas vezes as mulheres que deixaram uma vida cheia de proibições encontram uma forma de liberdade vivendo nas ruas. Linda revira os olhos quando lhe falam de associações e albergues. Ela não aguentaria que lhe impusessem um ritmo de vida. Durante o dia, ela sempre se senta em um banco, na praça Audin, onde desenha. Com os poucos dinares que ganha, ela compra um café, uma pizza, um tempo no cibercafé para se aquecer e ver filmes indianos. Na Didouche Mourad, principal avenida da capital, quase todo mundo a conhece.

"As pessoas estão acostumadas. Essas mulheres fazem parte da paisagem", constata Myriam Belala, da "SOS Femmes en détresse". "Antes elas tinham vergonha, hoje o fatalismo prevalece". Nesta noite, assim como nas outras, Linda vai buscar suas cobertas no café da rua Charras, onde deixa seus pertences. Ela dorme na entrada de um prédio em frente, no patamar de uma senhora que todas as noites lhe dá uma parte da refeição familiar. Amanhã talvez ela veja seu filho. Da última vez, ele disse que queria ser policial para defendê-la. Ela o dissuadiu da ideia. Linda não gosta de policiais.

"Nem irmã, nem esposa, nem filha, elas saíram do campo social e de qualquer forma de proteção", analisa a socióloga Fatma Oussedik. Para a pesquisadora, a solidariedade que predominou durante muito tempo na sociedade argelina está diminuindo. Muitas vezes as famílias não têm mais os meios de reintegrar essas mulheres. "Elas estão à frente de um sofrimento compartilhado", ela diz, "da mesma forma que os jovens partem para o mar ou aderem à resistência, por não poderem cumprir a função econômica que a sociedade espera deles". A socióloga ressalta, "Pior, hoje em dia são famílias inteiras que vemos nas ruas de Argel, inclusive chefes de família. Isso diz muito sobre o estado da família argelina e da sociedade em geral: uma sociedade em crise gera famílias em crise".

Tradução: Lana Lim

Postado por Alma Collins às 07h30 AM
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